terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Bruxas




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Histeria e caça às Bruxas.

Ao longo dos séculos, sintomas mutáveis da patologia descrita por Freud, há mais de 100 anos, são interpretados sob influências históricas, sociais, culturais - e ainda hoje intrigam profissionais da saúde.

Terror da Inquisição: versão de 1860 de xilogravura de 1232 faz alusão aos julgamentos e às condenações à fogueira. 


França, 1599. A jovem camponesa Martha Brossier é presa e julgada sob acusação de feitiçaria. Para o clero, os sinais de envolvimento com o demônio são inegáveis: seu corpo sacode-se em convulsões, ela contorce os músculos, contrai a face, se expressa com tom de voz alterado e se mostra insensível a picadas de longas agulhas. Segundo relatórios sobre o caso, mantidos na Biblioteca Nacional, em Paris, médicos chegam a levar em conta evidências de epilepsia ou histeria - mas por fim a hipótese é descartada. Martha é considerada culpada e, como tal, morta pela Inquisição. Talvez, se fosse examinada três séculos mais tarde, pelo médico Jean-Martin Charcot, no hospital francês La Salpêtrière, teria seus sintomas exibidos numa aula assistida por médicos recém-formados entre eles Sigmund Freud. 

É consenso que a prática freudiana começou com pacientes histéricas. Muito antes, porém, os sintomas tão desafiadores, variáveis, enigmáticos e mutáveis da patologia capaz de alterar funções motoras e sensoriais, sem nenhuma justificativa corporal para sua origem, já intrigavam leigos e especialistas. Em alguns momentos históricos, essas manifestações foram relacionadas à bruxaria e à possessão demoníaca. 

Na Idade Média, quando a Igreja estendia seus domínios para além da fé e exercia grande poder político e econômico, questões culturais e sociais mostravam-se intimamente relacionadas aos quadros histéricos. Com a queda do Império Romano, a Europa fragmentou-se em feudos e a Igreja era a única referência comum, o que tornava seus poderes cada vez mais amplos. Qualquer questionamento a suas crenças e dogmas era visto como grande ameaça.



Invasões bárbaras, freqüentes na época, eram fonte de insegurança, tanto pela violência, quanto pelas crenças pagãs que propagavam. Povos como os celtas e os druidas, incorporados pelos romanos, retomavam antigos hábitos, e todos os ritos pagãos invariavelmente eram considerados magia ou bruxaria. Tais crenças eram consideradas pelos dominantes formas ardilosas de o demônio conquistar espaços; o que diferia das práticas cristãs era tido como possessão e feitiçaria. Tal postura solidificou o poder da Igreja, promoveu a institucionalização do terror e do medo. O diabo e as bruxas faziam parte da vida ordinária da sociedade medievalista.

O Renascimento trouxe novas perspectivas, já que muitas das idéias, antes proibidas, passaram a fazer parte das discussões acadêmicas, filosóficas e teológicas. Antes que isso se tornasse realidade, porém, muita coisa se passou. Ao perceber que seu domínio não era tão inquestionável quanto antes, a Igreja reagiu violentamente.

É dessa época o ápice da Inquisição e dos autos-de-fé e é aqui que nos aproximamos da histeria. Muitos dos casos que hoje compreendemos como histeria eram tidos, na ocasião, como manifestações de bruxaria. Em 1599, Pierre L'Estoile escreveu em seu diário sobre o julgamento de Martha Brossier: "As agitações que observamos não têm nada da natureza das doenças; (...) não sendo nem epilepsia, a qual supõe a perda de todo o sentimento e julgamento; nem a afecção que nós chamamos de histeria, a qual não ocorre jamais sem privação, ou dificuldade de respiração. (...)

Somos compelidos até esse momento por todas as leis do discurso e da ciência, e quase forçados a acreditar ser essa jovem demoníaca, é o Diabo habitante nela o autor de todos estes efeitos".




De fato, as características apresentadas por Martha não diferem muito das descritas por Freud mais de 300 anos depois: estão presentes as alterações de percepção, de sensação e motoras, a multiplicidade de personalidades e grande plasticidade de sintomas.

O interesse de Freud pela histeria revela um enigma até então incompreensível para a ciência. Muitas vezes, os casos eram tomados como artimanhas e encenações que desestabilizavam o conhecimento médico. Tal como fazia o homem religioso do século XVI diante das bruxas, os médicos - sentindo-se desafiados - tratavam das pacientes de forma punitiva.

No início de sua carreira, sob forte influência de Charcot, Freud utilizava a hipnose na tentativa de tratar a patologia. Utilizava a técnica para buscar lembranças traumáticas relacionadas a cada um dos sintomas e, em 1895, publicou com Breuer Estudos sobre histeria. É nesse trabalho que pela primeira vez o autor utiliza o termo "trauma". Segundo sua primeira teoria sobre o tema, a paciente deveria lembrar-se do evento doloroso e vivenciar as emoções que não havia podido expressar de forma adequada na ocasião. 

Encontram-se na obra recortes clínicos do atendimento de cinco mulheres, casos importantes para a história da psicanálise: Anna O., Emmy von N., Lucy, Katharina e Elisabeth von R. Todas com algo em comum: sintomas clássicos de histeria de conversão (na qual conflitos psíquicos são convertidos em manifestações somáticas motoras ou sensitivas, dolorosas ou limitantes). Talvez, se tivessem vivido séculos antes, fossem consideradas bruxas, assim como Martha Brossier.

Freud afastou-se de Breuer ao perceber que suas pacientes relacionavam os eventos traumáticos a experiências sexuais. Intrigado, deteve-se na investigação da vida sexual das histéricas e construiu sua teoria da sedução, abandonada pouco depois. Ele sugeria que os sintomas tinham origem em uma experiência sexual precoce e violenta, na maior parte das vezes praticada pelo próprio genitor contra a criança.


Apesar das convicções de Freud, porém, os resultados dos tratamentos não eram promissores. Muitas pacientes o abandonavam e outras não apresentavam sinais de melhora. Tal situação o deixou muito preocupado com seu futuro profissional e pessoal. Em crise, Freud abandonou os estudos com as histéricas e voltou aos laboratórios de neuroanatomia.

Com a morte de seu pai, iniciou sua auto-análise e percebeu que seus sofrimentos tinham a mesma natureza das que ouvia de seus pacientes. O resultado mais conhecido desse processo analítico é a obra fundamental de Freud, A interpretação dos sonhos (1900), onde estão lançadas as bases da psicanálise: a divisão do aparelho psíquico, a noção de recalque e a proposição do funcionamento dinâmico do Inconsciente. O autor afirma que os sonhos têm sentidos que podem ser apreendidos por meio de um método, eficiente também para a compreensão dos sintomas histéricos. Essas proposições acarretam uma forma até então inédita de compreender o ser humano. Está fundada a psicanálise.

Satisfeito com os resultados, publica em 1905 Fragmentos da análise de um caso de histeria, mais conhecido como o Caso Dora, um relato clínico em que as relações entre sonhos e sintomas histéricos são evidentes. Trata-se, também de uma histeria de conversão.

Todos os casos de histeria descritos por Freud são conversivos e isso não deve passar despercebido. Talvez por conta disso, alguns entendam que todo fenômeno histérico é conversivo. Embora a conexão exista, Freud o autor foi bem além, afirmando que a principal característica da patologia é um tipo peculiar de transferência, na qual se busca a repetição de modelos de relacionamentos vividos com figuras parentais na infância, que implica uma relação de sedução e uma desesperada tentativa, por parte do paciente, de preencher um vazio existencial.

Ainda hoje, entre profissionais da saúde, persiste a expectativa de que a doença se apresente por meio de sintomas bizarros e chamativos. O principal interesse pelo transtorno parece vinculado à conversão. Talvez, um detalhe de importância fundamental seja por vezes ignorado: a histeria é uma patologia de ordem psicológica. Quando pacientes manifestam seus sintomas no corpo de maneira inequívoca, nos referirmos ao caso como "uma histeria de livro" - talvez um hábito que remonte à época de caça às bruxas, em que o desconforto provocado pelo enigma se misturava ao fascínio do espetáculo. 



Tais casos, porém, já não são tão freqüentes. É razoável lembrar que a histeria assume formas variadas e não se pode deixar de levar em conta características importantes do quadro como plasticidade, variabilidade e imprevisibilidade dos sintomas. Ao longo de mais de 120 anos, o conceito comportou uma variedade de terminologias - como histeria de angústia, de retenção, de defesa, hipnóide e traumática. Uma a uma, porém, tais denominações (e conceitos) foram abandonadas ou modificadas, de acordo com o desenvolvimento do pensamento freudiano, o que revela a impossibilidade de definir todas as facetas e características da histeria. 

Que o digam os organizadores do Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais (DSM), que a cada nova edição acrescentam novos nomes e verbetes para descrever uma estrutura psíquica dinâmica tão complexa quanto a histeria. O caráter relacional e o desenvolvimento da transferência no paciente histérico são de grande importância para compreender nuances da histeria. É indispensável ressaltar que a histeria é uma forma específica de se relacionar com o outro, e o sintoma explicitado no corpo, portanto, deve ser considerado apenas como instrumento a mais para o estabelecimento de vínculos.

Nesse quadro, o desejo pela figura parental do sexo oposto, vivido no complexo de Édipo, manifesta-se de forma intensa e, com semelhante ênfase, é recalcado. O conflito psíquico conseqüente se manifesta em todas as esferas da vida sexual e anímica do sujeito. A queixa histérica reflete a falta do objeto amado e desejado. Na tentativa de conquistar o que lhe falta, o paciente histérico utiliza sedução, seja em atos (falhos ou não), seja na forma de estabelecer vínculos e na maneira de mantê-los.

Não obstante, a sedução não pode se efetivar em uma relação consolidada e amadurecida, uma vez que isso colocaria em risco o frágil equilíbrio do aparelho psíquico, por se aproximar demais da fantasia incestuosa. Portanto, falamos de uma forma de seduzir que tende ao fracasso, que é em última instância a principal fonte de sofrimento histérico. 




Por conta do recalque, há a busca de um objeto alternativo de satisfação, como forma de evitar a fantasia edípica. A sedução, antes dirigida às figuras parentais, é reeditada na procura por outras pessoas que possam ocupar tal espaço. Por conta de deslocamentos e condensações, as figuras escolhidas guardam íntima relação com os objetos abandonados (os pais da infância) por terem traços similares a eles, pelo menos no modo de ver do sujeito, ou por serem diametralmente opostos. Os objetos atuais de interesse negam ou afirmam os primeiros modelos. Também essas escolhas estão fadadas ao fracasso, já que persistem as fantasias relacionadas ao objeto escolhido e ao que foi abandonado no passado. Na verdade, na histeria o objeto edípico nunca é abandonado - por isto Freud dizia que as histéricas sofriam de reminiscências.

Uma das queixas habituais dos histéricos refere-se à sensação de abandono, já que seus relacionamentos amorosos não se efetivam justamente em conseqüência da erotização idealizada em relação às pessoas que se encontram ao seu lado. Usando a sedução, o paciente constantemente busca situações que não podem ser realizadas, por exemplo investindo na aproximação de pessoas com algum tipo de restrição profissional ou emocional.

A insatisfação sexual é freqüente na experiência histérica, pois a intimidade com um parceiro é extremamente ameaçadora tanto às fantasias edípicas quanto aos preceitos morais e éticos do paciente. A organização psíquica da histérica faz com que, diante de desejos intensos, repressões igualmente fortes, fantasias e idealizações extremamente elaboradas, somadas à sensação de constante falta e insatisfação sexual, surja a tendência a dramatizar os mais variados eventos da própria vida, de acordo com as fantasias do paciente. Tal teatralização também era vista nos grandes julgamentos de feitiçaria. O macabro, o bizarro e o espetacular sempre chamaram a atenção. E, nesse sentido, nada mais sedutor que a bruxaria.

A dramatização cotidiana, porém, torna difícil e desgastante o convívio com o outro. A intensidade emocional e as manifestações inventivas da histérica dificultam as relações interpessoais. Tal não ocorre somente nas relações amorosas; ao contrário, todos os relacionamentos são erotizados e investidos de libido, principalmente com figuras de autoridade - como o analista, o professor ou o médico. 



No caso do médico, as respostas que o histérico quer ouvir não são as que ele pode dar, por isso freqüentemente percebemos as dificuldades de profissionais em lidar com esse tipo de paciente. O pedido histérico é de natureza psicológica, mas em geral tanto o próprio sujeito quanto as pessoas com quem se envolve não percebem essa demanda. Por isso, é comum uma autêntica peregrinação desses pacientes por consultórios de profissionais da saúde das mais variadas formações. Guardadas as devidas proporções, situações semelhantes viviam as mulheres acusadas de bruxarias: eram avaliadas por inúmeros especialistas (religiosos, médicos, advogados etc.) até se chegar ao veredicto, que invariavelmente as declarava culpadas.

Qualquer profissional que se detenha apenas nas manifestações somáticas das queixas histéricas, dando atenção somente aos aspectos descritivos e estáticos da doença, deixará de lado sua principal característica: o caráter dinâmico e relacional da doença. O aspecto certamente não passou despercebido a Freud. Ao formular o conceito de transferência, ele descortinou um tipo peculiar de relação estabelecida entre analista e analisando. O manejo clínico da transferência tornou-se, aliás, um dos principais instrumentos técnicos da psicanálise. Ou seja, Freud foi muito além da conversão ao descrever a histeria. Por meio da leitura criteriosa de seus textos, percebe-se que, apesar das mudanças nas formas de expressão da histeria, a patologia continua a se manifestar fundamentalmente como na época do autor. Com certeza não encontramos com tanta freqüência casos de conversão, mas as características transferenciais e relacionais permanecem.

A definição do caráter histérico, portanto, não pode se basear apenas na natureza somática dos sintomas, já que variam de acordo com a cultura, a tecnologia e os costumes. Atualmente, a maleabilidade da histeria e as influências que recebe não são consideradas em toda sua amplitude. Se os sintomas de Dora variavam de acordo com as circunstâncias de sua vida, por que temos dificuldades em admitir que a manifestação dos sintomas histéricos também se modifica conforme a realidade na qual estamos inseridos?

É freqüente que as várias queixas do paciente histérico sejam investigadas por diversos especialistas, e objetivamente descartadas. Isso torna o paciente alvo das mais variadas reações; desde acusações maldosas até punições exemplares. Não é raro que tais pacientes tomem as injeções mais dolorosas e sejam tratados severamente. Os resultados de tais condutas nem sempre são os esperados, pois, de certa forma, a queixa subjetiva histérica está sendo satisfeita e, portanto, o serviço de atendimento ou o profissional serão procurados novamente.É curioso observar que tais reações por parte dos médicos são semelhantes às dos caçadores de bruxas da Idade Média e do Renascimento. A maior busca continua a ser o desmascaramento daquele que tende a enganar o outro com seus ardis, bem como garantir a devida punição. Em ambas as situações não existe a preocupação com a compreensão da dinâmica psíquica, nem com a subjetividade do paciente: o importante é encontrar o demônio e punir as feiticeiras.

Ao desmascarar o paciente histérico, o médico também se sente exposto e traído e atua contratransferencialmente, recusando qualquer cuidado além do oferecido até então. Assim, mais uma vez o paciente se vê abandonado e rejeitado em sua solidão. A solução é buscar outro profissional que dê atenção às suas queixas e sintomas. Por isso os prontuários médicos dessas pessoas tendem a ser volumosos e repletos de exames e intervenções das mais variadas.

Afinal, a estrutura histérica não sofreu mudanças drásticas desde o início da psicanálise - ou desde a época da caça às bruxas. Os avanços tecnológicos da medicina tornaram insustentável a manutenção de determinados sintomas e, por isso, notamos um decréscimo no número de casos de conversão histérica, ainda que por vezes ocorram nos hospitais gerais, principalmente em serviços de emergência e clínicas neurológicas.
A histeria, plástica e mutável, adaptou-se aos novos tempos, e suas manifestações mais evidentes deixaram de ser as conversões. Nesse sentido, é possível afirmar que a patologia caminhou mais rapidamente do que os psicólogos e profissionais da saúde em geral, uma vez que persiste a expectativa dos fenômenos conversivos.

Tal fato preocupa, pois indica que talvez ainda não tenhamos percebido que a conversão não é a principal caracterização da histeria, embora Freud o tenha escrito há mais de cem anos: a estrutura histérica se define como uma forma de se relacionar com o outro, por meio de um tipo específico de transferência. Certamente, muitas das "bruxas" foram queimadas por seus sintomas e não por seus supostos poderes mágicos. Tanto a histeria quanto a bruxaria são alegorias do fracasso do conhecimento douto na compreensão de fenômenos enigmáticos. Talvez por isso, se insista ainda hoje em caçar bruxas.

Para conhecer mais
Da histeria... para além dos sonhos. Fabio Riemenschneider. Casa do Psicólogo, 2004.

Magistrados e feiticeiros na França do século XVIII. R. Mandrou, Perspectiva, 1979.

Freud, além da alma. Filme dirigido por John Huston, com roteiro de Jean-Paul Sartre, 1962.
Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/histeria_e_caca_as_bruxas.html
http://www.travessa.com.br/MAGISTRADOS_E_FEITICEIROS_NA_FRANCA_DO_SECULO_XVII/artigo/94646f14-8ebf-47e0-af95-1de97d774e6b
http://books.google.com.br/books/about/Da_Histeria_Para_Alem_Dos_Sonhos.html?hl=pt-BR&id=KRTgTtbdo_oC

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Discovery Civilization Reescrevendo a História As Bruxas de Salem

Witch City Doc - Witches, Laurie Cabot

Laurie Cabot - Como Fazer a Diferença

Laurie Cabot - Tornando-se Bruxo



Também conhecida por Religião da Deusa e Antiga Religião, a Wicca é uma filosofia de origem pré-cristã baseada no princípio de criação feminino, nos ciclos da natureza, como as fases lunares e as quatro estações, revivendo o culto à Grande Deusa e aos Deuses Antigos. Também inclui várias modalidades de magia e rituais que buscam a harmonização pessoal.
Para seus adeptos, a Wicca é considerada uma religião. Devido a popularidade que atingiu nos últimos anos, várias hipóteses são criadas; desde sua origem até a forma como é praticada atualmente. Portanto, as definições são amplamente maleáveis e a Wicca torna-se um tema relativamente incerto.
O termo Wicca possui provavelmente duas origens. A primeira está ligada a palavra saxônicaWitch, que significa dobrarmoldar ou girar. A segunda origem é relativa a raiz germânica da palavra Wit, que significa saber ou sabedoria. Portanto, deduze-se que Wicca pode significarmoldar a sabedoria. É neste conceito que reside sua essência: moldar (adaptar e utilizar) o conhecimento universal em próprio benefício, sem prejudicar a ninguém. Porém, a palavra ainda carrega uma conotação negativa e errônea, sendo associada ao satanismo, magia destrutiva e cultos ou seitas opositoras ao cristianismo de um modo geral.


A Wicca e os Celtas

O conceito de Magia Wicca que se conhece atualmente, surgiu com os Celtas no período neolítico; nas regiões da Irlanda, Inglaterra e País de Gales, atingindo posteriormente a Itália e a França. Os Celtas surgiram por volta de 2 mil anos antes de Cristo e provavelmente tiveram origem entre os povos indo-europeus da Ásia. Apesar do povo celta ter se espalhado por terras tão distantes, seus costumes não se fragmentaram. Pois o idioma, a arte e a religião sedimentavam a base cultural.
A raiz filosófica-espiritual dos celtas era baseada no Druidismo, uma religião politeísta que reverenciava duas divindades principais: a Deusa Mãe (chamada de Ceridwen), que representa a criação e a fecundação onde todo o universo se originou; e seu filho, o Deus Cornífero (chamado de Cernunos), o pólo masculino que representa a fertilização. A única forma de alcançar as divindades era mantendo uma estreita relação com a natureza. Até mesmo o calendário era orientado através da natureza. Os celtas realizavam festivais ritualísticos celebrando suas divindades, praticavam a agricultura e a cura através das ervas.
Na organização social Celta, os Druidas eram os sacerdotes, guardiões das tradições, cultura e teologia. A classe sacerdotal era dividida entre homens e mulheres. Mas a cultura era essencialmente matriarcal. A iniciação nos mistérios druídicos durava em média 20 anos e os ensinamentos eram transmitidos oralmente, pois temiam que a palavra escrita pudesse se tornar veículo de Magia incontrolável. Ao se espalhar pela Europa, os celtas levaram suas crenças nativas que se combinaram ao conjunto de crendices local, dando origem ao conceito primitivo da Wicca.


Pagãos & Cristãos

Paganismo é o termo usado para definir as religiões oriundas do período pré-cristão. Assim, as práticas pagãs se desenvolveram durante séculos. Até que em 330 d.C, o cristianismo passou a ser imposto aos povos de todo o mundo. As práticas pagãs foram consideradas heréticas e toda a religiosidade pré-cristã, bem como seus adeptos, tornaram-se alvos da intolerância católica.
A Igreja deturpou a real significação da crença pagã e a propagou como um culto demoníaco. Por exemplo, a imagem do demônio comum entre os cristãos, é um homem com chifres e patas de bode; muito semelhante à imagem do Deus Cornífero. Este é um forte indício de que a Igreja católica transformou a imagem de divindades anteriores ao cristianismo em símbolos maléficos. Assim, o sentido original assumiu um caráter negativista e destrutivo. Infelizmente, esta conotação se fortaleceu ao longo do tempo, e tudo que estivesse relacionado à bruxaria e Wicca, era visto como uma forma de anticristianismo. Este conceito errôneo foi se diluindo recentemente, à medida que estudos sérios e imparciais sobre as culturas pré-cristãs foram sendo divulgados.
Nesse período, certa de 5 milhões de mulheres foram queimadas, acusadas de bruxaria. Com isso a Igreja conseguiu conter o crescente poder que a imagem feminina estava adquirindo ao longo dos séculos, diante da chamada Deusa. Por conseqüência disso, foi gerada essa nossa sociedade masculinizada em quase todos os segmentos. Isso só veio a se alterar nos últimos anos, mesmo assim muito lentamente.


Wicca no Século XX

Um dos primeiros registros da utilização da palavra Wicca no século XX, ocorreu em 1921 quando foi publicado o livro The Witch Cult in Western Europe, da antropóloga Margaret Murray.Nesta obra, a autora relata os cultos pagãos do período pré-cristão que ainda eram cultivados em diversas partes da Europa. Em 1948, Robert Grave publicou The White Goddess. Após três anos, quando a última lei contra as práticas pagãs foi revogada, Gerald Gardner publicou o famoso Witchcraft Today. A consolidação da literatura wiccaniana ocorreu em 1979, com a publicação de Spiral Dance (com o título em português A Dança Cósmica das Feiticeiras) da autora Starhawk. Esta obra se tornou o livro sobre Wicca mais lido em todo o mundo. A partir daí, houve uma explosão de livros e artigos relacionados à práticas e crenças pagãs. Assim, a Wicca ganhou notoriedade na sociedade moderna ocidental, e ficou evidente que a bruxaria havia sido a crença religiosa predominante entre os antigos europeus; havia resistido a supressão e sobrevivido aos tempos modernos.
Atualmente, acredita-se que exista em torno de 12 milhões de neopagãos espalhados por todo o mundo. Sendo 250 mil nos Estados Unidos. Uma parte da população da Islândia é adepta do Asatru; uma variação da Wicca. Vários grupos se organizam e compõem um forte elo de divulgação por diversas partes do planeta. Assim, em todo mundo renasce a crença na Deusa e na Antiga Religião.

Por Spectrum